sexta-feira, 10 de abril de 2020

Do café, do Buda e da minha avó em uma Sexta-feira Santa de quarentena



15º dia sem passar da porta, seguimos. É sexta-feira da Paixão, a primeira da minha existência longe dos meus pais, do peixe frito e do molho de camarão deles. Deu saudade até daquele filme imenso que a gente assiste todo ano, fica triste, mas sabe que O Protagonista ressuscita no final.

Coo o café, observando que o açúcar acabou. Come-se mais açúcar na quarentena, aparentemente.

Lembro que minha avó faria aniversário no domingo de Páscoa, se ainda estivesse conosco. Sentimentos opostos me fizeram salgar o café com algumas lágrimas. Merda, logo quando o açúcar acabou.

Saudade e alívio.

Minha avó adorava que comemorássemos o aniversário com ela. Imagine a festa caindo no domingo de Páscoa! Certamente pediria para minha mãe caprichar no salaminho e no queijo provolone. Ah, saudade.

Mas ela era também a pessoa mais bem informada da família, e estaria agora fazendo quarentena, colocando água sanitária no pé da porta, usando máscara, lavando as mãos, recitando as orientações da OMS, ligando todo dia pra gente não sair de casa, e xingando muito o Bolsonaro a cada pronunciamento. Certeza. Seria a primeira a cancelar a comemoração, e sofrer com a gente esse exílio, guardando sua idade, hipertensão e diabetes em casa com todo cuidado.

Alívio por você estar comemorando no céu, vó, onde não tem vírus, não tem Páscoa com a gente longe, não tem grupo de risco.

Dor e Fé.

Li ontem à noite (Sapiens é minha atual leitura de quarentena, recomendo) que Buda percebeu que o problema da humanidade não estava na dor ou no revés, mas sim no sofrimento.

Nos momentos ruins, sofremos para que acabe, e nos momentos bons, também não estamos em paz porque sofremos para que ele perdure. Buda buscou acabar com esse sofrimento, sentindo a dor mas eliminando o desejo de que ela acabasse; sentindo a alegria mas eliminando o desejo de que ela perdurasse. Quando chegou nesse objetivo, atingiu o tal do Nirvana, virou de fato o Buda e foi transmitir esse processo para outras pessoas.

(momento em que eu peço perdão a algum eventual budista que tenha lido essa explicação, possivelmente pobre, possivelmente errada. De qualquer forma, fez sentido para meu raciocínio pré-cafeína.)

Do budismo voltei para a minha avó. Rezava seu terço pela manhã e à noite, sempre colocando todas as intenções que achasse conveniente em suas orações. Não raramente eu terceirizava minha fé: se alguém estivesse precisando de ajuda, eu pedia que ela incluísse nas orações do terço dela. Sempre funcionou. Todos os momentos importantes até ela partir, eu tinha uma certa segurança de que tudo ia dar certo, porque ela sempre reforçava que tinha rezado por mim.

Mas ela era também de um sincretismo religioso ímpar: o fato de ter raízes no espiritismo nunca fez com que deixasse de rezar seu terço; lembro de uma vez que pegou uma água abençoada na Igreja Universal: "pessoal é safado mas se a água é abençoada, eu vou deixar de pegar?"

Aí lembrei do Buda, da sexta-feira Santa, da minha avó, e tudo fez sentido num sincretismo matinal. Estar distante da família na Páscoa dói. Não ter mais as orações da minha avó dói. Estar presa dentro de casa sem poder ir na esquina e não ter ideia de quando isso acaba dói, e não tem o que fazer a não ser deixar doer. Sentir a dor. E ver que ela é só mais uma sensação, e que ao não ser repelida, vira lembrança, vira saudade, mas pode não virar sofrimento.

Eu li também que 90% dos budistas não consegue atingir o Nirvana. Ou seja, estatisticamente, essa tentativa de não sofrer vai dar errado. Complicada essa coisa de misturar exatas com humanas. Mas esses somos nós, sobrevivendo para contrariar as estatísticas do caos.

Manhã e noite.

Tive essas ideias antes do café. Lembrei delas durante o já tradicional panelaço das 20 horas, enquanto pensava que daqui uns 30 anos, quando forem fazer filmes da nossa época, vão começar numa tomada das janelas, com uma galera antiquada maluca cantando, batendo palma, panela e tambor.

"Que forma louca de sermos lembrados", pensei. E uma vez mais, lembrei da minha avó, que contava da infância na Praça XI durante a Segunda Guerra.

Como nas estações da Paixão, chorei pela segunda vez.

E resolvi por no papel - 'no papel', da série expressões antiquadas - essas divagações. Não tenho filhos, provavelmente não terei netos para lembrar do que eu fazia ou dizia em uma próxima Era. Mas em algum arquivo morto de um blog esquecido dos idos anos 20, lá estarei eu para dar minha visão dessa história.

E se hoje passamos por essa sexta-feira Santa prolongada por dias, e semanas, e meses, seguimos na esperança de que ressuscitaremos nossas vidas em um belo domingo de Páscoa.

Que assim seja!

domingo, 23 de abril de 2017

Sobre martelos, pregos e Analistas de Sistemas

Em um universo paralelo, muito distante de tudo o que você já viu ou ouviu em seu ambiente de trabalho...

Foram buscar duas cadeiras ao lado, para usar na reunião. A sala estava cheia, havia representantes de todas as áreas da empresa, pessoal estratégico mesmo. O projeto era o principal do ano, por isso as melhores cabeças estavam reunidas em torno das decisões e do planejamento do que seria feito.

O gerente de vendas, anos de prática com clientes e fornecedores, iniciou a reunião trazendo a mais nova necessidade do mercado:

"Pessoal, identificamos um nicho de vendas sensacional, que precisamos atacar o quanto antes. Como vocês podem ver nos gráficos projetados aqui, ao longo dos últimos anos os artistas abandonaram as pinturas rupestres, e começaram a pintar em quadros. Telas, , molduras, tinta a óleo. Quadros de natureza morta, pessoas ilustres, frases de efeito... enfim, quadros. Vocês já devem ter ouvido falar disso", e trocou o slide, exibindo um exemplar de uma obra de arte renascentista. Cabeças balançaram positivamente, algumas porque de fato haviam visto a peça anteriormente, outras apenas para não parecerem desatualizadas.

"Pois bem", continuou, "esses quadros estão se amontoando nas casas das principais personalidades da nossa cidade, e tornou-se uma demanda comum da alta sociedade colocar, de alguma forma, esses quadros presos em suas paredes, para que fiquem em exposição e não ocupem espaço sobre as mesas e prateleiras. Analistas de todo o mundo estão pensando na melhor forma de fazer isso, e a nossa empresa não pode ficar para trás".

O gerente da manufatura suspirou. Lá vinha o pessoal de vendas com mais uma invenção. Para que isso de pintar em quadros? Por que não continuam pintando os afrescos nos tetos, nas paredes e nas fachadas das casas, como sempre foi feito? Funcionava tão bem, era tudo tão bonito há séculos. Isso de quadro era certamente uma modinha do pessoal hipster. Ia passar.

O cara do contábil ficou preocupado. "Como é que vai ser isso? Se agora as paredes tem quadros, vamos ter que vender paredes com quadros embutidos. Eu teria que consultar o jurídico, para saber se isso deve ser contabilizado como construção civil ou como obra de arte."

"Bom, se temos uma obra de arte envolvida, imagino que deva ser contabilizado assim", retrucou o advogado do outro lado da mesa. "Mas temos que ver como vamos distribuir essas paredes pré-fabricadas, se por navio ou caminhões. O modo de transporte vai influenciar nos impostos que precisam ser pagos."

"Ah, isso varia de acordo com o cliente", respondeu o responsável pela área de produtos. Ele já tinha alguns protótipos rabiscados no caderno, e continuou: "Isso vai depender do tamanho da casa de cada um. Precisamos construir paredes sob medida para cada contrato assinado, e só então saberemos qual a melhor forma de transporte. Temos que definir também quantos quadros poderão ser colocados em cada parede, no máximo, e montar o nosso portfólio de opções. Podemos montar mostruários em nossas lojas físicas, para que os clientes conheçam todas as opções de paredes com quadros que vamos disponibilizar, e escolher uma delas. O cliente leva as obras de arte nos tamanhos pré-definidos na loja, nós fabricamos a parede em torno dos quadros e entregamos no endereço desejado."

O gerente de artes estava aflito na cadeira, e aproveitou a pausa do colega para dar sua contribuição: "Gente, eu sei que a obra de arte não é nossa, mas precisamos definir a paleta de cores das paredes. Não vai dar pra ser tudo branco."

Uma conversa paralela começou entre os representantes do pessoal de tecnologia. Eram eles os responsáveis por construir a solução que estava sendo desenhada na mesa, e um deles, cara com anos de experiência no ramo, começou a falar: "Pessoal, vamos por partes. Tem muita coisa que está faltando aqui, e que precisa ser pensada. Primeiro, os quadros serão verticais e horizontais? Isso já multiplica por dois todas as opções do portfólio. Outra coisa, o material da parede. Madeira, tijolo, qual vai ser? Se a gente for vender pros gringos, eles adoram uma parede de madeira. Esse negócio aí da paleta também vai ser brabo. Imagina o estoque em cada loja física, de um monte de tinta. Não sei não, eu faria inicialmente só branco, mesmo. E um negócio aí que ninguém pensou, é o que a gente vai usar pra juntar uma coisa na outra" - pegou a caneta do quadro branco e começou a rabiscar - "como é que a gente vai fazer, tem a moldura, a tela do quadro, a parede, reboco... como fica aqui entre uma coisa e outra?" - rabiscou fortemente o esquema, na parte entre a parede e o quadro.

Nesse momento, um outro cara da tecnologia, que desenhava alguma coisa num bloco de papel, pediu a palavra cutucando o colega, que resistiu, mas entregou-lhe a caneta do quadro-branco.

"Pessoal, eu estive aqui pensando em tudo o que vocês colocaram, sobre a necessidade dos nossos clientes e o nicho de mercado que o gerente de vendas nos trouxe... e queria dar uma ideia um pouco mais simples... me digam o que acham."

O rapaz começou a rabiscar uma ferramenta, e o esquema de como usá-la. Uns bufaram, outros ficaram surpresos, dois menearam a cabeça indicando que era "naquilo mesmo que tinham pensado", e seria razoável dizer que um ou outro já nem estava mais prestando atenção ao que acontecia.

Ele escreveu, deu algumas explicações de seus diagramas, e ao fim completou: "então, eu chamo isso aqui de martelo. E esse outro aqui, é o prego."


***


Essa historinha é apenas um exemplo bobo do que considero em minha explicação, quando me perguntam o que faz o tal do Analista de Sistemas - cargo carimbado na minha Carteira de Trabalho e na de tanta gente por aí.

Idealizar as melhores ferramentas, esse é o trabalho de um analista de sistemas. Não é seu papel verbalizar empecilhos, listar tudo o que o usuário quer ou idealizou como solução, dizer onde fica o botão, qual o tamanho da tabela, impor dificuldades para mostrar facilidades. O desafio, o que separa um cara d'O cara, deveria seguir sempre o mesmo processo: ouvir o problema, entende-lo, processá-lo, e apresentar uma solução que atenda à demanda. Com cuidado: eficiência, custos, prazos e principalmente o valor daquilo que está sendo entregue para o cliente, tudo faz parte da análise de um sistema. Prover soluções, não novos problemas. Essa é a meta.

Fazemos martelos e pregos. Ou paredes personalizadas com obras de arte embutidas. Qual dessas soluções será desenhada e aplicada, bem... cabe ao seu Analista de Sistemas preferido dizer.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Bem dentro da caixinha

No mundo corporativo, muito se fala sobre pensar e agir "fora da caixa". Inovar virou verbo clichê, inovação é substantivo obrigatório em qualquer palestra. Pensar diferente é preciso, mesmo que não se saiba nem exatamente o porquê ou para quê.

Talvez essa dificuldade de agir no tão almejado "fora do esperado", na vida profissional, esteja em um reflexo do que fazemos, e de como encaramos, os outros aspectos da vida. Ao contrário do corporativo, na vida pessoal muitas vezes nos enfurnamos de cabeça nas caixinhas selecionadas pelos amigos, conhecidos, famosos, pela TV, pela Internet, pelo Facebook.

É tanta caixa para entrar, que às vezes nem notamos como estamos lá no fundo delas. É tanto rótulo, que geralmente nem percebemos como nos tornamos fiscais das caixas alheias, e julgamos quando alguém põe a cabeça pra fora. Mesmo que só para tomar um ar.

Tem a caixinha do estilo. "Ah, fulano é nerd", "beltrano é pegador", "aquela ali é hipster", "aquele ali é forrozeiro". Ferrou. Se o nerd for à praia, vai ser uma comoção. "Mas como assim?", "eu não esperava isso de você", "deve ter sido a namorada que forçou". Se o pegador levar a mãe na igreja, é porque está em depressão. Se o forrozeiro ouvir Metallica, céus, capaz de ser excomungado pela sociedade da zabumba.

Tem a caixinha da política. Entre bolsominions e comunistas, é melhor aceito flamenguista virar vascaíno, do que dar um like numa opinião "do outro lado". Como se existissem mesmo todos esses lados.

Tem a caixinha da religião. Evangélico tem que tomar muito cuidado com a música que ouve, para não ser olhado torto por alguns ditos fiéis. E esses negócios de macumba? Deus me livre um católico ir num casamento no terreiro. Disse o Papa que é melhor ser ateu do que hipócrita, mas ele tem andado muito longe dessas caixinhas e pode estar fazendo confusão.

Tem a caixinha dos valores. Se namora, tem que casar. Se casa, tem que ter filho. Se já tem dois, não vai ser doido de ter o terceiro. Se são seus filhos, você tem obrigação de estar muito feliz com eles. Se é foto de família, sorria. Se não namora... é gay. Se não sorriu na foto... hm. Estranho.

Estar bem na caixa é estar bem de vida, dentro do esperado, fora dos cochichos de whatsapp. Estar bem na caixa é o conforto de estar fazendo direitinho. Estar bem na caixa é... desesperadoramente pequeno. Restrito. Apertado. Escuro.

No mundo corporativo, já é assunto batido que as caixas devem ser destruídas, amassadas, pisoteadas. Mas e no resto da vida? Por que o rockeiro precisa ser julgado quando desfila num bloco de carnaval? Talvez ele descubra ali uma nova paixão - e isso não significa que "ele mudou". Por que o nerd não pode arrasar na balada? Existe alguma restrição sobre uma mesma pessoa jogar vídeo game e dançar - algo letal como misturar manga com leite, talvez? E o baladeiro passar o feriadão no Netflix, a mãe deixar o filho com a avó apenas para estar sozinha, o bisavô usar o Tinder, o engenheiro fazer teatro, o advogado ser bom de matemática...?

Até que se prove o contrário, temos uma vida só, muitos desejos, desafios diversos e muito, muito pouco tempo. Parece raso, quase absurdo, a essa altura do campeonato, que você esteja preocupado em tampar sua caixa, deixar ela selada para bater no peito e se orgulhar de "ter o seu estilo", "ser tradicional", "não decepcionar", "não abrir mão". Também parece feio ser fiscal da caixa alheia. Quem está na dúvida, indeciso se vai ou se fica, volta rápido para dentro da caixa, ao ver tantos dedos apontados.

Desmontem as caixas. Queimem as caixas. Destruam-nas. Antes que seja tarde.

domingo, 19 de junho de 2016

Dos profissionais apaixonados - Ou porque eu torço pela Gabi

Semana passada a Gabi se formou. Arquiteta. Mercado de trabalho complicado, a sombra midiático-arrebatadora da crise já escurecendo a tradicional foto-jogando-o-chapéu. E as incertezas naturais daquela viagem que começa cheia de malas vazias, sabe-se lá para qual destino, sabe-se lá com quais escalas.

Minha torcida pela Gabi, porém, é enorme. Não porque ela é uma pessoa muito legal, excelente companhia para todo canto - uma daquelas surpresas agradáveis que você ainda encontra no modo offline, no melhor estilo amigo do amigo do amigo. Só isso já seria suficiente para meus desejos de sucesso, mas profissionalmente a torcida é totalmente racional: ela é apaixonada pelo que faz. E o mundo precisa muito, muito disso. Com urgência.

Gabi é representante do grupo de profissionais que escolheu a profissão, não o cargo. Ela entra no restaurante e percebe o estilo do teto antes de olhar o cardápio. Explica pro grupo o que é um pé direito, cheia de orgulho. Intimamente, tem vontade de um dia construir o projeto que montou para o trabalho de conclusão de curso.

Por isso eu torço. Porque só um arquiteto que passa na rua analisando as varandas alheias, por distração, vai saber fazer uma varanda corretamente. Porque só o programador que, de bobeira num sábado à noite, discute uma nova tecnologia com o amigo, vai saber tomar as decisões certas quando o projeto for de verdade.

Tirando um pouco o foco da arquitetura e das faculdades, vamos inserir na história o Seu Gilson. Ele é o cara da dedetização, que vem aqui na casa do Aquino de tempos em tempos, colocar remédio contra baratas nos cantinhos. Trabalho que certamente não dá uma vida de luxos ao Seu Gilson, que apesar de novo já tem dois ou três netos. Mas o Seu Gilson é fascinante. Ele conhece as espécies de baratas, o que cada uma gosta, onde se escondem, onde é o lugar para colocar o veneno. Apaixonante, até eu tive vontade de pesquisar sobre baratas, depois que o conheci. E o resultado do que ele faz é excelente, nunca mais tivemos uma intrusa por aqui. Serviço de qualidade. Ah, como é raro um serviço de qualidade! Seu Gilson é uma espécie em extinção, que precisa de proteção, cuidado e condições de se multiplicar. Porque é um apaixonado, e precisamos de apaixonados.

Quanto tempo e quanto dinheiro são perdidos todos os dias, por trabalhos mal feitos, em todas as esferas? Como é ruim ter que aguardar duas horas num consultório para ser atendido. Como é custoso perder um dia de trabalho esperando o técnico que marcou e não veio. Como é frustrante ter que chamar o encanador três, quatro, cinco vezes para resolver o mesmo problema, porque ele não soube identificar de onde veio o vazamento. Quantos milhões as empresas perdem por hora, quando um profissional se esconde em sua baia, sob o manto do "isso não é problema meu", e não vai até a baia ao lado, resolver o problema. Porque estão ali apenas pelo cargo, pelo dinheiro, pelo ponto, pela promoção, pelo "meu lugar ao Sol", pelas férias, chegam apenas para ir embora. Anos, décadas chegando apenas para partir.

Ao contrário da minha alegria quando vejo um novo apaixonado chegando, está a minha frustração no papo clichê do "qual concurso você vai fazer" - nada contra os concursados, por favor. Minha birra é com a forma de pensar. O cargo é, bem, apenas um cargo, como todos os outros. Milhares, milhões de cérebros afiados, braços fortes, comunicação nata, que são condensadas, reduzidas, achatadas na tal da estabilidade a qualquer custo. Sem nem colocar na conta o que vão fazer durante dias, meses, anos, décadas a fio. Um casamento de 35 anos sem paixão. Será que vão suportar até a aposentadoria? Será que se matam antes? Tiro na cabeça, o veneno da obesidade, dos vícios, a frustração de uma vida não vivida, tudo isso mata. Será que se divorciam antes do fim? Quando o braço estiver cansado, o cérebro desacostumado, a fala presa, talvez seja tarde demais para se arrepender. Será que ficam viúvos? A tal estabilidade está fincada sobre a bandeja de um garçom bêbado, atravessando o salão. Quem sabe até quando as tulipas estarão cheias de chopp.

Não defendo workaholics. Acho que morrerão cedo, frustrados e sozinhos, porque trabalhar não é tudo. Mas é uma boa parte. Assim como dizia a propaganda da Ortobom, 1/3 da sua vida você vai começar partindo para mais um dia de trabalho. E a humanidade precisa desse trabalho para continuar sendo humanidade - para melhor ou para pior, dependendo muito da qualidade do que cada um de nós está fazendo, todos os dias.

Pela humanidade. Pela qualidade. Pela fé de que uma coisa ou outra ainda podem dar certo. Um viva à Gabi, ao Seu Gilson e a todos os apaixonados. Viva!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

E Luiza Casou

Um viva aos neurônios subversivos e teimosos, que prendem em suas memórias o que lhes dá na telha, porque no fim das contas a telha é deles, e não nossa.

Fosse nosso o controle do que guardar ou não nas lembranças, certamente estariam cheias de MBAs, teorias, processos e toda a sorte de itens curriculáveis, além de selfies em locais exóticos e culturas inúteis de toda espécie. Efêmeros que somos, eliminaríamos no segundo período de faculdade todos os amigos da primeira infância, para colocar o conteúdo daquela matéria impossível. Por sorte ou sabedoria Divina, quem sabe, somos donos dos nossos narizes, não dos nossos cérebros.

E eles estão todos lá. Desde o primeiro colega da pracinha até os do segundo grau (perdoem-me os novatos do "Ensino Médio", ou coisa que o valha, mas o público alvo aqui é formado pelas minhas lembranças, e elas fizeram segundo grau). Não sabemos se estão vivos, bem, alegres, mas vez ou outra pulam em nossas memórias, porque tinham aquele brinquedo, porque gostavam daquela música, porque foram com a gente naquela excursão, porque dividiram o castigo, o biscoito, as confidências.

São memórias que se mexem, que aquecem o coração quando menos se espera. Memórias de pessoas que não existem mais, porque cresceram, hoje são outras pessoas - admiráveis ou não - das quais perdemos contato, na maioria. Ou acompanhamos de longe, quase observadores inofensivos nesse mundo curioso da Rede Social - desculpe novamente algum jovem anos 2000 que leu até aqui, mas não somos nativos desse mundo. Nós o adotamos com o gosto e a responsabilidade de ser a primeira geração a trocar a máquina de escrever pela impressora nos trabalhos de escola - feitos na casa do amigo que tinha computador, claro.

No meio dessa confusa forma de acompanhar de perto-longe quem teria virado foto, lembrança aleatória em domingos de chuva, a Luiza Coelho casou.

Luiza foi amiga de infância, depois melhor amiga de pré-adolescência, depois destinatária preferida, depois amiga da outra turma, depois "vamos marcar alguma coisa", depois "Feliz aniversário"... e só. Idas e vindas de vidas que se cruzam e descruzam por aí. Várias cartas, vários parênteses, várias piadas internas envolvendo Arquivo X, naquela fotografia amarelada que se move dentre dendritos e axônios.

Aí outro dia ela casou. Vi na timeline, várias fotos, uma felicidade só, festa linda, cortejo com cara de Carnaval, sensacional. Cara de Luiza. Sei que é. Porque tempo e distância podem tirar do dia a dia a convivência, mas não há como remover da memória o tanto de emoções compartilhadas com amigos de longa data. Não fazem parte apenas das lembranças - são parte do que nos tornamos, de quando aprendemos a pensar e a agir - amigos de infância, ou da quase infância, são parte de nós. Eternamente.

Quem casou foi a Luiza, mas vieram na memória tantos outros instantes, tantos outros rostos, que virei noite vendo foto de gente alheia no Facebook. Uns vi tem menos tempo, outros muitos anos. Gente que engordou, que emagreceu, que casou, que saiu do país, que teve filho, que não fez nada disso. Gente que seguiu a carreira que lia com afinco no Guia do Estudante (será que isso ainda existe, na edição impressa?), gente que descobriu que não era nada daquilo. Facebook é uma bosta. A gente sabe da vida dos outros sem fazer parte, conhece a superfície mas não faz ideia do conteúdo. Como um tabloide, site de fofoca, em que tudo é maravilhoso ou desastroso. Meio termo não gera like.

Já esbarrei duas vezes com Conrado na entrada do metrô. Sempre só de passagem, só um oi assustado de quem vê um rosto conhecido mas não lembra imediatamente de onde. E quando lembra, é como ver fantasma - o mundo não deveria ser suficientemente pequeno para encontrar um colega de turma de outra cidade, na saída B do Catete. Os dois instantes também fizeram brotar lotes de memórias, o nosso esquema enfileirado de cola, a época da temida "habilidade específica", o sempre violão na aula vaga.

Luiza lembra Manoela, que lembra Gisele, que lembra Letícia, que lembra Vanessa Vilela, que lembra Renata, que lembra Paula de Castro, Nora, Léo, Anna Mei, Flávia, Fernanda, Karen. Conrado lembra Caio, que lembra Elisa, que lembra Ana Lu (que dessas eu não perdi contato, graças aos Céus!), que lembra Thiago, que lembra Phelipe, que lembra Natasha, que lembra, que lembra, que lembra...

Lembre aí.

As lembranças fazem com que saibamos sempre de onde viemos, do que somos feitos, de quem nos moldou e direcionou nossos pensamentos e ações. Nossos amigos. Nossos colegas. Os amigos e os nem tanto.

Luiza me fez divagar e escrever um monte. Como nos velhos tempos. Faltou um pouco de parênteses (estou destreinada (não conseguiria abrir e fechar tantos mantendo a linha de raciocínio (mas sou programadora (ou analista de sistemas, que é mais bonito) e deveria saber fazer isso, caso contrário nada funcionaria), como fazia antigamente), mas posso tentar um pouco (rá!)). Arquivo X está de volta, depois de 13 anos (TREZE anos... nasceram 13 cabelos brancos quando realizei isso). A verdade ainda está lá fora, ao que parece. E Luiza estava uma noiva linda. E tirou fotos lindas na Lua de Mel, e tem cara de felicidade de verdade, ao lado do marido (porque uma coisa que a gente aprendeu na era do selfie, foi a separar felicidade de tenho-que-parecer-feliz).

Viva os noivos! Viva os amigos de infância! Viva...!

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Do Ator e do Amor - Ou Porque eu choro quando as Luzes se acendem

Ilustração: carlasartstudio.com
Uma hora e pouco de pura falsidade para o entretenimento. Falsidade que faz rir, que faz chorar, que dá medo, dá nojo, prazer e toda variedade de sensações. Acendem-se as luzes, o ator sorri. E eu choro. Invariavelmente.

Emociona-me o triunfo final do ator. Emociona-me seu olhar brilhante diante da plateia, que ele fingiu enxergar durante todo o espetáculo. Emociona-me ter dado tudo certo, seja porque todas as falas foram decoradas, seja porque o improviso foi a alma do show.

Emociona-me a ousadia de reviver, toda sessão, as sensações dos outros, vidas imaginárias, percepções além do palco. Emociona-me que consigam, gostem, e se alimentem de tudo isso com avidez. Emociona-me já ter estado uma vez do lado de lá, e deixar lembrar, de cá, o calor que dá sair da coxia e ser quem não se era, e quem não será jamais.

O ator se mistura ao louco quando se apaixona pelo personagem. Criador e criatura emaranhados sobre o tablado, um encantado por existir, o outro por deixar de existir. Dessa união enebriante surge a profissão apaixonada do artista, cujas entranhas reclamam de fome, para que ele entenda que precisa de dinheiro, e não pode se nutrir só da própria paixão.

Nem todos os que atuam são atores; nem todos os atores estão nos palcos - ou na praça, ou num banco de jardim... Em torno de uma enorme mesa de carvalho, numa reunião séria dia desses, ouvi de alguém importante que "quem não estava indo trabalhar porque gostava, era melhor nem ir." Se o aviso foi necessário, é porque talvez estejam faltando mais artistas. Verdadeiros artistas sempre vão porque gostam, por mais estranho que seja o papel naquele momento.

Lembro-me de um amigo ator, que interpretava uma cenoura nas Escolas Municipais. Nenhum ator deve se orgulhar de ser cenoura, e ele também não o fazia, naturalmente. Mas quando estava lá, interpretando, não era ele: era a cenoura. E a cenoura estava lá, de corpo (?), alma e betacaroteno para ensinar às crianças sobre alimentação. Naquele momento, o que de mais importante existia era dar alma ao papel, seja qual fosse. Esse é o papel do ator - com o perdão do trocadilho.

Sou grata à vida por poder ir ao teatro muitas vezes - duas só esse mês, que orgulho! E poder acompanhar toda essa dinâmica. Emociono-me à toa, eu sei, mas marejar os olhos de alegria nunca é demais.

Emociona-me deixar o ator me enganar. Emociona-me o ator. O amor, sim, o amor do ator. Emociona-me.

Parabéns a todos os atores, os que atuam e os que estão por aí, pelo seu dia.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Do que sou - ou Uma Carta para Minha Avó

Ah, vó. Há quanto tempo eu não lhe escrevia! Já faz mais de dois anos que você foi embora... e muitos desde a última carta que lhe mandei.

Mentira. Você não foi embora. Está aqui. Bem pertinho.

Fui arrumar suas coisas esse fim de semana. Estamos tirando tudo dos armários - nossa, quantos armários -, para a mudança do meu avô pra Terê. Sim, do jeito que você dizia que ele devia fazer quando você fosse embora. Demorou um pouco, sabe como são essas coisas de dia a dia. Mas depois daquele susto, bem no segundo aniversário da sua partida, quando você me sussurrou que meu avô ia precisar de ajuda naquela noite - ah, que noite longa -, estamos recuperando o tempo perdido.

Fiquei encarregada de arrumar o quarto do Julio. Ou o meu quarto. Ou o quarto do computador. Ou o quarto da mesa do meu avô. Ou o quarto do som. Ou o quarto do bar. Ou o quarto do Luiz Carlos. Ah, quantos quartos dentro de um só cômodo, cheio de família nesses trinta e tantos anos de Praia da Bica! Apesar de não abrir nenhum armário por lá há mais de dois anos, vó, tudo o que tinha lá ainda era seu. Duas ou três pastas de documentos do meu avô, nada mais. Todo o resto era você, em muitos pedacinhos.

Encontrei um caderno de contos sobre o que seria o amor. Escrito por você e por suas amigas de escola, em 1949. Acho que foi você quem teve a ideia de escrever, porque é sua a primeira crônica sobre o amor. Talvez ainda não conhecesse meu avô, e a ideia de amor ainda fosse mais romântica e delicada do que a vivida em 57 anos de casamento. Mas não menos dedicada e completa. Sabe vó, um naco grande do meu avô não vivia dentro dele, e foi embora junto com você. Nem o coração de não demonstrar sentimento dele resistiu, quando três meses depois da sua despedida, o infarto quase o levou junto. Mas sabe como é meu avô: o seu inventário ainda não estava pronto, então ele tratou de se recuperar logo pra resolver esse problema.

Peguei uns CDs seus para mim, tá? As pessoas quase nem dão mais valor, mas eu gosto. Peguei os do Chico, e Canção do Amor Demais também. Não tenho vitrola, mas também guardei o LP do "Prá Gente Miúda", que dançamos tantos sábados! "Lá vem o pato, pato aqui, pato acolá, quá quá...". Eu não tinha ideia de que tantos nomes importantes do cancioneiro popular faziam parte daquelas nossas tardes de sábado, enquanto a gente contava o passo com a bailarina, ou desenhava numa folha qualquer com a Aquarela. O LP foi comprado em 29/09/1988, você anotou na capa. Eu tinha pouco mais de dois anos, quando você começou a me mostrar que Chico Buarque seria meu compositor favorito.

Falando em folha qualquer, vó, eu tive que me desfazer dos seus blocos de desenho, e dei para a doação as nossas réguas com formatos geométricos. Eu sei que você nunca chorava, mas eu chorei por nós duas, quando tirei da gaveta as minhas cartas de Teresópolis para você, e a impressão do Power Point do "Notícias da Serra". Estava junto com o "Aviso de aniversariante" que eu colei no seu andador, e que você exibiu orgulhosa o dia todo, em um dos últimos aniversários em que passamos juntas. Chorei e choro de novo agora, porque essa mania de chorar eu herdei da outra vó.

Aquela porta do armário que tinha centenas de livros, revistas e cadernos empilhados era a que mais me preocupava, e foi a que me deu mais trabalho. Porque você estava distribuída em todas as páginas. Em todas as pastas de letras de música do Coral (com o codinome Elza II, porque tinha uma outra Elza no coral do Iate); nas suas anotações do curso de japonês (o Aquino, que você não chegou a conhecer mas teria se dado muito bem, trouxe o livro e o dicionário pra ele); nos mais de 20 anos de Almanaque do Pensamento; nas revistinhas mil de horóscopo; no seu mapa astral; nos livros de primeiros socorros; nos livros de psicologia, biologia, ortografia, gramática, tarô, do-in, terapia, autoajuda, filosofia, Jorge Amado, Vinicius de Moraes... Nas anotações e nos marcadores de livro, nas flores secas entre as páginas, lá estava sua busca louca pelo conhecimento de qualquer coisa que despertasse o interesse. Separei a maior parte para o sebo, mas trouxe algumas bolsas para casa.

Desculpe o mau jeito ao desconstruir seus maiores tesouros. Doeu aqui, porque eu sei que lhe doeu também.

Não se preocupe. Está guardada aqui entre as minhas veias essa vontade de me interessar por qualquer coisa que desperte interesse, de escrever, atuar e ser programadora ao mesmo tempo, de não ter medo de estudar matemática e gostar de samba. Pode deixar. A sua biblioteca audiovisual será mantida e ampliada. E os livros que estavam tanto tempo sem ser lidos vão para novas mãos, para nova gente interessada. Lugar de livro é na cabeceira de leitor, não trancafiado em um armário de memórias.

Deu trabalho, o seu tesouro. Cansa revistar tudo aquilo, viu. Mas valeu a pena, fazia tempo que não ficávamos juntas assim. Como nas tardes de sábado.

Peguei o LP do "Prá Gente Miúda" e ouvi as músicas, no computador, como se fosse a vitrola. Chorei de novo. Essa coisa de chorar é da minha outra avó, você sabe. Entre muitas outras coisas, como o gosto por Agatha Christie, mas isso não vem ao caso agora, depois eu escrevo para ela também. Essa coisa de saudade machuca, dói mesmo, por isso a gente chora. Mas a vida é assim, e como você escreveu em várias agendas e cadernos no fim da sua passagem pela Terra, "O importante não é o que fizeram de nós, mas o que faremos com o que fizeram de nós".

Pois é, vó. Chorei de novo.

E mais ainda, quando Chico Buarque cantou os últimos versos do nosso LP na vitrola:

"Só peço a você, um favor, se puder... Não me esqueça num canto qualquer..."